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‘Justiça de Olhos Abertos’ leva júri simulado para dentro da sala de aula com foco na inclusão de estudantes cegos

Francivânia Torres perdeu praticamente toda a visão ainda na adolescência e, morando em Boa Viagem, no Interior do Ceará, acabou saindo da escola quando tinha apenas 13 anos. Com diagnóstico de retinose pigmentar, doença genética que causa a degeneração progressiva das células fotorreceptoras da retina, ela imaginou que o destino seria viver dentro de casa. Mas há três anos, já adulta e morando em Fortaleza, aprendeu a ler em Braille e voltou a estudar. Atualmente Francivânia é aluna do 1º Ano na Escola Estadual de Ensino Médio em Tempo Integral Instituto dos Cegos, localizada no bairro Antônio Bezerra. Nesta terça-feira (20/10), ela teve uma experiência que nunca imaginou ser possível: atuou como defensora em um júri simulado. “Quando eu enxergava um pouco melhor, eu via os júris na TV, aquela coisa incrível de Tribunal, algo tão distante de mim… Agora, sendo uma pessoa com deficiência visual quase total, tendo a oportunidade de representar a advogada de defesa, isso me deu a noção dos direitos e deveres que cada ser humano tem. E aprendi que, se em algum momento essas leis forem quebradas, a gente tem júri, juiz, advogados, para nos amparar. É isso que faz a gente se sentir mais segura”, ressaltou. A atividade foi promovida pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), por meio do projeto “Justiça de Olhos Abertos”, voltado à inclusão e acessibilidade de pessoas cegas e com baixa visão no Judiciário estadual. O estudante Davi do Nascimento da Silva, outro aluno do 1º Ano, exerceu a função de juiz presidente do júri e ficou maravilhado com a experiência. “A gente aprendeu como é que realmente funciona a Justiça, como é que as coisas são aplicadas de fato. A gente aprendeu tanto a questão da comunicação, a hora certa de falar, como também aprendeu os argumentos. Nós estudamos muito, foi muito intenso, mas muito pertido”, avaliou o adolescente. A encenação possibilitou aos jovens vivenciarem os papéis de jurados, juiz, réu, testemunhas, promotor e defensor Toda a sessão contou com audiodescrição, feita pela professora Clarissa Maciel, tornando a apresentação mais compreensível para as pessoas com deficiência visual, como Ana Carolina Cavalcante Pereira. Na plateia durante todo o evento, a aluna da turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) afirmou que aprendeu bastante com a atividade. “Foi a primeira vez que participei de um júri simulado e foi uma experiência incrível pra mim”. ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL O julgamento simulado foi acompanhado pelo juiz da 1ª Vara do Júri de Fortaleza, Antônio Edilberto Oliveira Lima, o promotor de Justiça Rafael Matos de Freitas Morais e o defensor público Breno Vagner Bezerra Vicente, que orientaram as alunas e os alunos sobre os procedimentos e as funções exercidas durante um júri popular. “Essa é uma ação que, de fato, não apenas nos abre as portas, mas também nos faz chegar aos lugares mais distantes que, por vezes, nós mesmos não percebemos. Independente da condição, da origem, do sexo, da cor da pele ou da deficiência ou não, todos nós somos sujeitos de direitos que precisamos ocupar os espaços que a sociedade oferece. Sem dúvidas, tem sido um grande aprendizado”, destacou o juiz. Participante de outras atividades do projeto, o promotor de Justiça Rafael Matos concordou com o magistrado. “É um motivo de grande alegria e representa a valorização daquilo que eu faço como promotor de justiça. Além disso, maximiza ainda mais a imagem do Ministério Público, que é a de defensor dos direitos coletivos, inpiduais, de promotor de políticas públicas e de cidadania.” “É essencial para que os jovens tenham acessibilidade e conhecimento de como funciona a dialética, o debate sobre questões jurídicas importantes, para que se tenha acesso ao exercício da cidadania”, acrescentou o defensor público Breno Vicente, salientando a satisfação de participar da atividade. A INSPIRAÇÃO PARA O JÚRI A coordenadora da Escola Estadual, professora Najara Gonçalves, explicou que o livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, de Carolina Maria de Jesus, que estava sendo estudado, inspirou o júri simulado. Escrita na forma de diário, a obra relata o cotidiano real de uma catadora de papel na favela do Canindé, em São Paulo. Professoras, estudantes e profissionais da Justiça que atuaram no Tribunal do Júri “Os alunos ficaram muito emotivos, principalmente as meninas, por conta dos casos de violência doméstica, e a gente preferiu fazer uma adaptação para que todos se sentissem confortáveis e conseguissem realizar”, disse a coordenadora. Os ensaios foram conduzidos pela professora de filosofia, Hipácia Lima, que parabenizou o envolvimento dos estudantes com a prática. “Alguns alunos tinham, de fato, dificuldade de falar, de se expressar, não queriam nem segurar o microfone, mas foram se envolvendo, se entregando, e o resultado não tinha como ser outro que não o de parabenizá-los por essa socialização, esse processo de falar em público e, inclusive, entender direitos e deveres.” FUTURO SEM BARREIRAS Para Francivânia, que está tendo a oportunidade de sonhar com uma nova vida por meio da educação, a transformação foi completa. Deixando para trás o pessimismo de um destino de isolamento, que imaginava na adolescência, ela planeja seguir para o ensino superior e cursar Administração. “Hoje eu vejo que não importa a deficiência, a gente pode crescer como ser humano, intelectualmente, por meio de uma profissão. Eu pretendo, depois daqui, seguir para uma faculdade para ajudar mais pessoas. A nossa missão é viver para fazer o bem”, defendeu. Também participaram do júri simulado a diretora da Escola, Sâmia Araújo Quinderé, e a coordenadora Joseane Nunes, além de professoras e professores do turno da tarde. Presente, ainda, o servidor e jornalista do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), Edson Viana Gomes, idealizador do projeto. O servidor lotado na 1ª Vara do Júri de Fortaleza, Luis Fernando Santiago Landim, contribuiu orientando sobre a condução dos trabalhos da sessão. PRÓXIMA AÇÃO No próximo dia 11 de novembro, às 14h, haverá palestra motivacional com a participação do juiz Wallton Pereira de Souza Paiva, que é cego de um olho, e do advogado Aurelino Oliveira, cego dos dois olhos. A programação ocorrerá na Sociedade de Assistência aos Cegos do Ceará (SAC), parceira do Judiciário desde a primeira edição do projeto. À esquerda, o eletricista Joselito da Costa Gomes fez questão de acompanhar o júri. Ele perdeu a visão após o glaucoma. Tem 60 anos e atualmente está no 9º Ano. Aprendeu a ler depois de ficar cego, em Braille SAIBA MAIS Desenvolvido pela Assessoria de Comunicação do TJCE, o projeto “Justiça de Olhos Abertos” teve a segunda edição lançada no dia 26 de maio deste ano, quando houve a distribuição de cartilhas em Braille e em fonte ampliada sobre o funcionamento da Justiça.  Além de material educativo e júris simulados, foi viabilizada visita guiada ao Fórum Clóvis Beviáqua, ocasião em que houve o acompanhamento de um julgamento real, como é possível conferir AQUI. A iniciativa está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente no que se refere à promoção da acessibilidade e da inclusão das pessoas com deficiência.
20/10/2026 (00:00)
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