Museu da Justiça promove debate sobre história e arquitetura do Antigo Palácio da Justiça
Diretora do Museu da Justiça do Rio, Siléia Macieira, fala durante atividade do Circuito Centenário do Antigo Distrito Federal
O Museu da Justiça do Rio de Janeiro promoveu, nesta quinta-feira, 18 de junho, mais uma atividade do Circuito Centenário do Antigo Distrito Federal, iniciativa que busca estimular a reflexão sobre a história urbana e institucional da cidade por meio de palestras e visitas guiadas. Desta vez, o encontro teve como tema, em uma roda de conversa, o Antigo Palácio da Justiça, edifício inaugurado em 1926 e atual sede do museu.
A abertura foi realizada pela diretora do Museu da Justiça do Rio, Siléia Macieira, que contextualizou a atividade dentro da programação do Circuito Centenário. Para ela, o encontro representou um aprofundamento do olhar sobre um dos prédios que integram o projeto que articula pesquisa histórica, patrimônio e experiência urbana, estimulando a reflexão sobre o papel dessas instituições na construção da sociedade brasileira.
“Se antes tivemos uma palestra de lançamento com um olhar mais amplo sobre o Centro do Rio e as transformações ocorridas ao longo de um século, hoje colocamos uma lupa sobre a nossa própria casa, o Antigo Palácio da Justiça. É um edifício que nos dá muito orgulho e cuja história ajuda a compreender não apenas o trabalho da Justiça, mas também a trajetória da cidade”, afirmou.
A primeira palestra foi conduzida pelo historiador Gilmar de Almeida Sá, chefe do Serviço de Acervo Textual, Audiovisual e de Pesquisas Históricas do Museu da Justiça. Ele apresentou um panorama da evolução das sedes do Judiciário fluminense desde o século XVIII até a inauguração do palácio, relacionando essas mudanças ao processo de urbanização do Rio de Janeiro.
Ao longo da exposição, Gilmar explicou que a criação do Tribunal da Relação do Rio de Janeiro, em 1751, refletiu o crescente protagonismo da cidade dentro do Império Português. O local foi uma instituição histórica de segunda instância precursora do atual Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), que surgiu para julgar os pleitos do sul do Brasil, tornando-se posteriormente a Casa da Suplicação do Brasil. Segundo ele, a instalação de um tribunal próprio foi resultado tanto de demandas práticas quanto de interesses políticos da Coroa (historicamente associados a monarquias absolutistas ou sistemas parlamentares).
“A historiografia já demonstrou que havia razões mais profundas para a criação do tribunal. O Rio de Janeiro ganhava importância estratégica dentro da América Portuguesa, e a instalação da Relação também atendia ao objetivo da metrópole de reforçar sua autoridade em uma região cada vez mais relevante”, destacou.
O historiador também ressaltou que o atual Palácio da Justiça foi a primeira sede construída especificamente para abrigar a instituição. “A construção de um edifício projetado para os serviços da Justiça aguardou exatos 174 anos. Somente em 1926 foi inaugurado o Palácio da Justiça, concretizando um projeto que atravessou gerações”, observou.
Da esquerda para a direita, Siléia Macieira, diretora do Museu da Justiça do Rio; Gilmar de Almeida Sá, chefe do Serviço de Acervo Textual, Audiovisual e de Pesquisas Históricas do Museu da Justiça; a assessora técnica do Museu da Justiça, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História Comparada (IH/UFRJ), mestre pelo mesmo programa e bacharel e licenciada em História pela UFRJ, Tayná Louise de Maria; e mestre em Arqueologia pelo Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu Nacional (UFRJ) e bacharel e licenciada em História pela UFRJ, Lydia de Carvalho Coelho
Na sequência, a historiadora Lydia de Carvalho Coelho analisou os aspectos arquitetônicos e simbólicos do edifício, destacando como a linguagem estética adotada no projeto contribuiu para construir uma representação visual da Justiça e da autoridade estatal.
De acordo com ela, o Antigo Palácio da Justiça integra um conjunto de edifícios republicanos inspirados na tradição clássica, como o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e o Museu Nacional de Belas Artes. Elementos como a simetria, a monumentalidade e os espaços cerimoniais foram concebidos para transmitir valores associados à instituição.
“O visitante não é apenas recebido em um prédio. Ele é introduzido em uma verdadeira encenação do poder. A arquitetura comunica equilíbrio, permanência e solenidade, reforçando uma determinada concepção de justiça que permanece perceptível até hoje”, explicou.
Lydia também destacou que o edifício deve ser compreendido como um documento histórico e cultural. “A arquitetura é uma forma de discurso. O Antigo Palácio da Justiça nos mostra como a República buscou construir sua legitimidade por meio de imagens, símbolos e referências do passado, que continuam produzindo sentido e dialogando com a sociedade cem anos depois”.
Encerrando a programação, a historiadora Tayná Louise de Maria abordou as transformações urbanas ocorridas no entorno da Rua Dom Manuel e do antigo bairro da Misericórdia, destacando os impactos sociais e urbanos provocados pela implantação dos edifícios de poder na região.
A pesquisadora explicou que a construção do Palácio da Justiça alterou profundamente a dinâmica local, transformando uma área residencial e comercial em um centro institucional da República. Segundo ela, o processo esteve inserido em um contexto mais amplo de reformas urbanas promovidas no início do século XX.
“Com a instalação do Palácio da Justiça e do Palácio Tiradentes, a Rua Dom Manuel deixou de ser uma via pouco expressiva para se tornar a rua do poder. Ao mesmo tempo, essas transformações produziram impactos sociais importantes, apagando construções, memórias e formas de sociabilidade que existiam naquele espaço”, afirmou.
Ao concluir sua apresentação, Tayná propôs uma reflexão sobre os efeitos dessas intervenções urbanas. “Hoje podemos questionar se aquelas reformas eram realmente necessárias da forma como foram executadas e se os benefícios obtidos justificavam os custos sociais e humanos produzidos. Essas são questões fundamentais para compreendermos a cidade e valorizarmos o patrimônio histórico”, ressaltou.
A atividade integrou a programação do Circuito Centenário do Antigo Distrito Federal, projeto que reúne instituições históricas do Centro do Rio de Janeiro para promover a valorização do patrimônio cultural e estimular novas leituras sobre a história da cidade.
SV/IA
Fotos: Brunno Dantas/TJRJ